Propósito nas empresas: uma reflexão necessária

por exi

Já faz tempo que o termo "propósito" se tornou subjetivo e foi incorporado em discursos institucionais de diversas empresas. Preciso dizer que não gosto da forma como o universo corporativo utiliza o jargão do propósito. Primeiramente, porque é algo intrínseco às pessoas; então não dá para simplesmente plantar a sementinha dele com iniciativas motivacionais, discursos ou mudanças genéricas. Outro ponto é que, cada vez mais, as pessoas se diferem e mostram que não são as mesmas de outros tempos, e também não possuem os mesmos valores ideológicos, culturais e sociais. Em um meio que deveria ser diverso e plural, chega a ser cômico o propósito ser tratado de forma tão rasa.

Aqui um exemplo: os nossos propósitos estão bem longe de serem os mesmos dos nossos avós, que compraram todos os terrenos e trabalharam 40 anos na mesma empresa para sustentar 5 filhos (ou mais). Essa ideia corporativa de um propósito geral, onde todos devem trabalhar em prol de um mundo melhor, do aumento dos lucros, de um ambiente mais agradável e próspero para todos, é um discurso ultrapassado que não considera o contexto de quem faz tudo acontecer: o mamífero com emoções complexas que chamamos de ser humano. Como disse Marcos Calliari, CEO da Ipsos Brasil: “Só entender o contexto das pessoas vai responder por mais de 50% dos processos de decisão de marca”.

Construindo reputação com propósito

A reputação de uma marca precisa ser construída no core do negócio também. Portanto, vale considerar o contexto coletivo e individual e entender que, antes dos interesses da marca, as pessoas precisam comer, morar, vestir, estudar e, o melhor que qualquer marca pode fazer é contribuir para isso. Porque, no melhor dos cenários, o melhor trabalho é aquele em que trabalhamos para nós mesmos, para construir nossa segurança, para alcançar nossos objetivos e para viver de acordo com nossos padrões.

Ademais, o propósito, quando verdadeiro, deve refletir nas ações concretas da empresa, não apenas em campanhas publicitárias. Empresas que realmente entendem isso vão além das palavras e implementam práticas que beneficiam não só a organização, mas a sociedade como um todo. Isso inclui desde políticas de sustentabilidade ambiental, inclusão e diversidade até práticas justas de trabalho e envolvimento ativo nas comunidades onde operam. Quando o propósito é genuíno, ele se manifesta em todas as ações da empresa, desde a forma como trata seus funcionários até a maneira como desenvolve seus produtos e serviços.

Ação concreta em tempos de policrises

O que quero dizer é que, no fim das contas, as pessoas vivem pelas suas próprias aspirações ou pelas questões coletivas políticas e sociais que as impactam diretamente, mas não querem mais comprar palavras vazias que falam sobre propósito com um viés meritocrata de ganhar um burnoutinho. O propósito não pode cair no jargão institucional. Ele é mais que isso. É uma meta pessoal, é o que vem à frente do "eu", é o que tolera a rotina com vibração e influencia a planejar e executar toda ação.

Além disso, o contexto atual de policrises, onde crises econômicas, sociais, ambientais e políticas se entrelaçam, exige um entendimento mais profundo e empático das necessidades humanas. As empresas precisam reconhecer que seus funcionários e consumidores estão exaustos de discursos vazios. A ação concreta, baseada em um propósito genuíno, é o que pode realmente fazer a diferença. Isso não só melhora a reputação da marca, mas também contribui para um mundo mais justo e sustentável.

Conclusão: a importância de um propósito autêntico

Então, vale entender por qual razão muitos discursos ainda são rasos, ainda falam de emoções em contextos genéricos, ainda comunicam como se não estivéssemos em uma era de policrises, tentando dia após dia entender o que acontecerá e por que todo mundo está tão cansado. Existe um propósito por trás dos meus textos, e não é agradar ao leitor, mas provocar uma reflexão genuína sobre como podemos ser mais autênticos em nossas ações e ir além do campo dos discursos.